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2010, nova viragem nos seguros em Portugal?

14-04-10A anunciada privatização do Grupo Caixa Seguros, traz-nos à memória um tema que nos últimos 40 anos tem tido evoluções no mínimo curiosas e que mostram a falta de enquadramento estratégico da actividade seguradora nacional e a ausência de projecto consistente no tempo.

Em traços muito gerais e numa perspectiva das “competências”, recordo as diferentes fases por mim testemunhadas:

    •    Na situação pré-1975, tínhamos inúmeras “Companhias de Seguros”, algumas delas com um conjunto de equipas técnicas bem preparadas. Destaco os casos que conhecia melhor, o da Império e o da Ourique, cada uma à sua escala.

    •    Durante o período das nacionalizações, a lógica predominante de gestão era contaminada por critérios políticos. A consolidação foi também uma tónica, com inúmeras fusões.

    •    Com as reprivatizações, o mercado ganhou novo folgo, permitiu o ressurgimento de um conjunto de pessoas bem preparadas e viveu-se uma fase de grande dinamismo.

    •    Com início em finais da década de 90, fruto de diversas operações de fusões e aquisições na Banca que envolveram grupos económicos, constituiu-se um forte grupo segurador detido peloEstado e líder do mercado em diversos ramos. Ocupado durante algum tempo em reorganizações internas, foi perdendo parte da criatividade e especialização técnica que herdou das “Seguradoras” que se fusionaram mas, mesmo assim, conseguiu ser uma referência no mercado em alguns aspectos, nomeadamente, nas áreas dos seguros e sinistros automóvel, nos seguros de saúde e nos grandes riscos.

A anunciada nova fase de “reprivatização” é uma grande incógnita e receio que o único critério sobre a mesa seja o preço!

Apesar do mercado português estar bem servido de Seguradores, tanto nacionais como multinacionais, a possível reprivatização do Grupo Caixa Seguros deveria também ter como objectivo conseguir desenvolver Seguradores de referência, como acontece noutros países. As recentes fusões Açoreana / Global e Lusitânia / Real podem ser um dos caminhos!

Indirectamente ligado a este tema, as perspectivadas mudanças no ISP podem igualmente contribuir para alterações profundas no mercado e, em minha opinião, enfraquecer o papel regulador e didáctico que tem sido seguido, asfixiando as especificidades da actividade seguradora pelo peso institucional da banca. É bom recordar as importantes reformas introduzidas nos últimos anos, relacionadas com as, Regras de Governação, Solvência II (em curso), Directivas da Responsabilidade Civil e Regularização de Sinistros Automóvel, Indemnização de Danos Corporais, Mediação de Seguros, Lei do Contrato de Seguro…, ainda não completamente absorvidas.

Neste contexto, só se podem agravar as incompreensíveis situações que já hoje vivemos de legislação que impõe obrigações em matéria de seguros ignorando a possibilidade de se traduzirem em matéria segurável. A recente “Responsabilidade Civil Ambiental” é um exemplo típico! E quando serão aprofundados com pragmatismo importantes desafios da nossa actividade, como sejam o “Fundo Sísmico”, a dinamização dos Seguros para Complementos de Reforma, dos Seguros de Saúde sem idade limite de permanência e dos Seguros de Dependência?

O meu ponto é, estando na ordem do dia o posicionamento estratégico de Portugal no Mundo no que se refere à produção de bens e serviços, porque não apostar num centro de competência nos seguros que possa concorrer com Madrid, Irlanda ou outros destinos mais exóticos? Não estou a pensar posicionarmo-nos como centros internacionais de primeira linha como Londres, Zurique ou Munique mas simplesmente, não importarmos tudo feito!

Temos o necessário para o fazer, gente bem preparada, universidades cada vez mais atentas às necessidades do mercado, boas infra-estruturas / comunicações e locais muito agradáveis para viver e trabalhar. Contudo, isto não basta, não se faz por decreto mas com uma visão estratégica, tempo e muito trabalho. Não é o que tem acontecido nos últimos 40 anos dos seguros em Portugal e é empobrecedor ver os nossos jovens partirem transformando-nos num país de idosos e sem talentos.

É neste contexto que entendo dever ser repensado o enquadramento da Caixa Seguros e do ISP, procurando atrair “gente dos seguros”, nacionais e estrangeiros, para trabalhar em Portugal.

Poderá parecer irrealista e generoso mas há que optar entre termos alguma liberdade para escolhermos os nossos destinos ou limitarmo-nos a “servir bicas aos estrangeiros” ou a “vender o que os outros produzem”.

No que se refere à corretagem de seguros, onde me insiro, e nas empresas que dirijo temos vindo a desenvolver uma equipa de raiz nacional que actua bem nos domínios da internacionalização.

Daremos certamente o nosso contributo em todos os projectos que apontem neste sentido.

Miguel Costa Duarte, OJE, Terça-feira 15 de Abril de 2010

 
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